Desconfiança entre Estados Unidos e China promete dificultar acordo sobre inteligência artificial

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve colocar a inteligência artificial no centro das discussões de sua visita a Pequim para encontrar o líder chinês Xi Jinping nesta semana. A informação foi publicada pela Reuters e revela que, embora a tecnologia tenha ganhado peso estratégico nas relações bilaterais, autoridades norte-americanas consideram improvável a assinatura de compromissos concretos entre as duas potências.

Guerra Silenciosa: Desconfiança entre EUA e China Complica Acordo sobre Inteligência Artificial - Imagem complementar

O principal motivo para esse ceticismo é a desconfiança mútua que persiste entre as nações. A rivalidade tecnológica se intensificou de forma significativa após o lançamento do Mythos, modelo de inteligência artificial considerado o mais avançado desenvolvido pela Anthropic, empresa sediada nos Estados Unidos. A chegada desse sistema elevou as apostas para ambos os lados da disputa.

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Especialistas e observadores internacionais comparam o cenário atual de disputa em inteligência artificial a uma corrida armamentista nuclear nos moldes da Guerra Fria. A metáfora reflete a intensidade com que as duas potências competem pelo domínio de tecnologias que podem definir o equilíbrio de poder global nas próximas décadas.

As autoridades chinesas manifestaram preocupação com o fato de que a exclusão do acesso a modelos de ponta como o Mythos, cujos testes foram bloqueados para cidadãos e empresas da China, pode criar um hiato geracional nas capacidades de defesa e segurança cibernética do país. Essa barreira tecnológica é vista em Pequim como uma ameaça estratégica de longo prazo.

Enquanto isso, o Mythos identificou milhares de vulnerabilidades graves em sistemas operacionais e softwares amplamente utilizados, o que disparou uma corrida de bancos e governos ao redor do mundo para reforçar suas defesas digitais. Pesquisadores advertem que o avanço descontrolado da inteligência artificial pode acelerar o design de bioarmas, causar choques financeiros sistêmicos e até resultar em sistemas autônomos que agem de forma independente do controle humano.

A presença do CEO da Nvidia, Jensen Huang, e do consultor de políticas tecnológicas da Casa Branca, Michael Kratsios, na delegação de Trump sinaliza que discussões sobre chips de alto desempenho, como o modelo H200, podem estar na pauta do encontro. Esses componentes são essenciais para o treinamento e funcionamento de modelos de inteligência artificial avançados.

Pequim propôs formalmente a criação de um mecanismo de diálogo liderado pelo Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e pelo vice-presidente das Finanças da China, Liao Min. O objetivo seria estabelecer canais diplomáticos para tratar das tensões tecnológicas. Entretanto, as expectativas de resultados práticos permanecem baixas, uma vez que as agências envolvidas não são especializadas em inteligência artificial e o governo Trump só recentemente passou a focar na verificação de segurança de modelos avançados.

Kwan Yee Ng, especialista da consultoria Concordia AI, defende a criação de uma linha direta de comunicação entre os países para que possam sinalizar rapidamente incidentes gerados por inteligência artificial. Segundo a analista, o impasse atual tem raízes ideológicas profundas. Ela afirmou que quando um lado vê a inteligência artificial como um risco de proliferação a ser contido e o outro enxerga essa mesma contenção como um ataque a uma tecnologia de uso geral, torna-se extremamente difícil encontrar um terreno comum.

O governo chinês tem denunciado o que considera um bloqueio sistemático do ecossistema tecnológico ocidental. Por outro lado, legisladores dos Estados Unidos pressionam pela aprovação do MATCH Act, proposta legislativa que impõe novos limites ao acesso de Pequim às cadeias de suprimento de semicondutores. Atualmente, a escassez de poder computacional e as restrições de exportação já obrigam diversos modelos de inteligência artificial chineses a racionar o acesso de seus usuários.