O CEO da Microsoft, Satya Nadella, prestou depoimento na segunda-feira (11) no Tribunal Distrital dos Estados Unidos em Oakland, na Califórnia, como parte do processo judicial movido por Elon Musk contra a OpenAI. Durante horas de interrogatório, Nadella revelou detalhes inéditos sobre a parceria bilionária entre a Microsoft e a OpenAI, os bastidores da demissão e recontratação de Sam Altman em 2023, e sua relação pessoal com Musk.

A Microsoft é uma das maiores investidoras da OpenAI, tendo injetado bilhões de dólares na startup em troca do acesso à sua tecnologia, que integra produtos como o assistente Copilot e o buscador Bing. Por isso, as declarações de Nadella carregam peso significativo no contexto do julgamento, que envolve acusações de fraude e desvio de finalidade institucional.

Nadella relata em juízo que não foi avisado sobre demissão de Altman - Imagem complementar

O processo foi iniciado por Elon Musk, que cofundou a OpenAI ao lado de Sam Altman e do presidente Greg Brockman. A acusação central de Musk é de que Altman e Brockman abandonaram a missão original da organização, que era desenvolver inteligência artificial em benefício da humanidade, para transformá-la em uma empresa orientada pelo lucro.

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Nadella contou ao tribunal que não foi avisado previamente sobre a decisão do conselho da OpenAI de demitir Altman, tomada em novembro de 2023. Segundo seu relato, ele foi retirado de uma reunião e informado de que a decisão já havia sido consumada. O conselho da OpenAI, à época, justificou a ruptura alegando que Altman não havia sido consistentemente sincero com os membros da diretoria.

O executivo da Microsoft, no entanto, considerou essa justificativa insuficiente e apontou para outra possível motivação. Em sua declaração em juízo, Nadella sugeriu que ciúmes pode ter estado entre os fatores por trás da decisão do conselho, indicando que tensões interpessoais e disputas internas influenciaram a ruptura com Altman.

Além disso, Nadella manifestou preocupação com o risco de uma debandada em massa de funcionários da OpenAI logo após a demissão de Altman. Esse cenário de crise não se concretizou porque Altman foi recontratado poucos dias depois, após forte pressão de funcionários e parceiros. A rapidez da reversão evidenciou o poder de influência que Altman exercia tanto dentro da empresa quanto junto aos investidores.

Musk afirma em sua ação judicial ter doado milhões de dólares para a criação da OpenAI como uma entidade sem fins lucrativos. Segundo o bilionário, ele foi enganado quando a estrutura da organização foi alterada para permitir a captação de investimentos com retorno financeiro, mudança que culminou na participação majoritária da Microsoft. Musk também acusa a Microsoft de auxiliar e instigar os réus a cometer fraude contra ele.

Apesar da gravidade das acusações que envolvem a Microsoft, Nadella revelou que Musk nunca o procurou pessoalmente para conversar sobre suas queixas em relação ao acordo entre as duas empresas. O CEO da Microsoft afirmou que Musk tem seu número de telefone, mas os dois nunca dialogaram diretamente sobre o tema. A ausência de comunicação entre os dois executivos foi destacada durante o depoimento como um ponto relevante para a defesa da Microsoft.

Sam Altman ainda não prestou depoimento no processo, mas deve ser chamado ao tribunal ainda esta semana. A participação de Altman é aguardada como um dos momentos mais importantes do julgamento, já que as acusações de Musk recaem fortemente sobre sua conduta na condução da transição estrutural da OpenAI.

Greg Brockman, presidente da OpenAI e também cofundador ao lado de Musk e Altman, é outro nome central no processo. A mudança de modelo de governança da OpenAI, que passou de organização sem fins lucrativos para uma estrutura com braço comercial, é o ponto de conflito que sustenta as acusações de quebra de confiança e fraude.

O julgamento, que já se estende por semanas, tem exposto as profundas divisões entre figuras-chave da indústria de inteligência artificial. As tensões reveladas em depoimentos como o de Nadella vão além de disputas corporativas e colocam em questão o controle, a governança e a direção ética das tecnologias de inteligência artificial mais avançadas do mundo.

A participação da Microsoft no caso é particularmente delicada porque a empresa não é apenas uma investidora, mas uma usuária direta da tecnologia da OpenAI em produtos comerciais de larga escala. Qualquer decisão judicial que afete a estrutura da OpenAI ou sua relação com a Microsoft pode ter reflexos concretos no mercado de ferramentas baseadas em inteligência artificial.

Para profissionais e empresas que dependem de soluções como o Copilot e as APIs da OpenAI, o desdobramento do processo representa uma fonte de incerteza. A possibilidade de mudanças na governança da OpenAI ou na dinâmica de sua parceria com a Microsoft pode influenciar o roteiro de adoção dessas tecnologias no ambiente corporativo.

O caso também reforça o debate sobre a tensão entre missões declaradamente altruísticas e os interesses comerciais que sustentam o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial de grande escala. Enquanto o julgamento avança, o setor acompanha de perto cada depoimento, ciente de que as decisões tomadas neste tribunal podem redefinir as regras de engajamento entre empresas de tecnologia e organizações de pesquisa em inteligência artificial.