Avaliada em US$ 50 bilhões, DeepSeek negocia aporte de fundo estatal chinês em rodada histórica de captação

A DeepSeek, startup chinesa de inteligência artificial sediada em Hangzhou, está em negociações para realizar sua primeira rodada de captação de recursos externos, com uma avaliação que pode chegar a US$ 50 bilhões. Segundo informações divulgadas pelo jornal Wall Street Journal e posteriormente repercutidas por outras publicações internacionais, o Fundo Nacional de Investimento da Indústria de Inteligência Artificial da China, braço governamental criado há cerca de um ano com aproximadamente US$ 8,8 bilhões em capital, tem avançado nas conversas para liderar o aporte. A negociação representa um movimento estratégico do governo de Pequim para alinhar a startup ao seu objetivo de autossuficiência tecnológica, em meio às tensões com os Estados Unidos no setor de semicondutores e inteligência artificial.

Além do fundo voltado especificamente para inteligência artificial, relatos publicados pelo Financial Times indicam que o Fundo Nacional de Investimento da Indústria de Circuitos Integrados da China, também conhecido como Big Fund, estaria em discussões para assumir o papel de investidor-líder na operação. Esse veículo estatal é uma das principais ferramentas de financiamento do setor de chips na China e já apoiou empresas como a Semiconductor Manufacturing International Corp., uma das maiores fabricantes de semicondutores do país. A participação simultânea de dois fundos governamentais reforça a centralidade da DeepSeek na estratégia nacional de redução da dependência de tecnologias americanas, especialmente os aceleradores de inteligência artificial produzidos pela Nvidia.

China Investe Bilhões em Startup de IA para Desafiar Domínio Americano na Tecnologia - Imagem complementar

A startup ganhou notoriedade global no início de 2025 com o lançamento do DeepSeek-R1, um modelo de linguagem de raciocínio de código aberto, ou seja, cujo código-fonte é disponibilizado publicamente para uso e modificação. O que surpreendeu o mercado foi a capacidade do modelo de alcançar resultados equivalentes ou superiores aos de soluções de ponta dos Estados Unidos, utilizando significativamente menos poder de computação para o treinamento, processo em que o sistema aprende padrões a partir de grandes volumes de dados. Essa eficiência colocou em xeque a premissa de que o avanço da inteligência artificial dependeria necessariamente de volumes cada vez maiores de chips avançados, o que contribuiu para uma queda abrupta nas ações da Nvidia nas bolsas internacionais.

Fundada em julho de 2023 por Liang Wenfeng, a DeepSeek é mantida e financiada pela High-Flyer, um fundo de investimentos quantitativos chinês. Desde sua criação, a empresa se dedicou a desenvolver modelos de inteligência artificial com foco em raciocínio e performance, explorando abordagens técnicas que priorizam a eficiência no uso de recursos computacionais. O lançamento do R1 consolidou a startup como uma das concorrentes mais relevantes no cenário global de inteligência artificial, ao lado de grandes empresas americanas como OpenAI, Google e Anthropic.

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A rodada de captação em andamento marca a primeira vez que a DeepSeek busca capital externo desde a sua fundação. A empresa pretende usar os recursos para avançar no desenvolvimento de seus modelos, expandir a infraestrutura computacional e ampliar sua presença no mercado. Empresas chinesas de grande porte, como Tencent e Alibaba, também estão em negociações para participar da rodada, o que amplifica o alcance e a credibilidade da operação no ecossistema tecnológico asiático. Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, a avaliação inicialmente discutida girava em torno de US$ 40 bilhões, mas as conversas mais recentes elevaram esse patamar para a faixa entre US$ 45 bilhões e US$ 50 bilhões.

O contexto geopolítico é fundamental para compreender o interesse do governo chinês na DeepSeek. Desde 2022, os Estados Unidos têm imposto controles de exportação cada vez mais restritivos sobre chips avançados e equipamentos de fabricação de semicondutores destinados à China, com o objetivo de limitar o avanço militar e tecnológico do país asiático. Essas restrições tornaram ainda mais relevante o desenvolvimento de soluções de inteligência artificial que operem com hardware menos sofisticado, algo que a DeepSeek demonstrou ser possível com o R1. Nesse cenário, o investimento estatal na startup funciona como uma blindagem estratégica, garantindo que os recursos financeiros necessários para a continuidade da pesquisa estejam disponíveis mesmo sob pressão internacional.

A valorização expressiva da DeepSeek também reflete as transformações em curso no mercado global de inteligência artificial. A ascensão de uma startup chinesa ao patamar de dezenas de bilhões de dólares em poucos anos demonstra que o setor não está restrito às empresas do Vale do Silício e que a competição tecnológica entre nações está se intensificando de forma acelerada. O interesse de fundos soberanos e empresas gigantes da economia chinesa reforça a percepção de que a inteligência artificial se tornou um recurso estratégico de interesse nacional, comparável a setores como energia e defesa.

Os desdobramentos dessa negociação ainda não estão totalmente definidos, e não há confirmação oficial nem da DeepSeek nem dos fundos governamentais envolvidos. No entanto, a convergência de interesses entre a startup, o Estado chinês e os grandes conglomerados tecnológicos do país sugere que a rodada deve se concretizar em patamares que podem reconfigurar as forças do mercado global de inteligência artificial. O que está em jogo não é apenas o destino de uma empresa, mas o posicionamento da China na disputa pela liderança tecnológica no setor mais estratégico da economia contemporânea.