Apenas 9% das organizações da região EMEA — que abrange Europa, Oriente Médio e África — conseguiram entregar resultados de negócio mensuráveis na maioria de seus projetos de inteligência artificial nos últimos dois anos, segundo pesquisa da consultoria IDC. Os 91% restantes permanecem presos em fases de experimentação, sem que os sistemas desenvolvidos alcancem escala nem impactem a operação como um todo. O retrocesso não se deve a uma perda de interesse na tecnologia, mas sim a dificuldades de execução e à ausência de comprovação financeira sólida. Pressões macroeconômicas e a concorrência por recursos de tecnologia da informação estão levando os conselhos de administração a exigir provas concretas de retorno financeiro antes de liberar verbas para implantações mais amplas.

Nos últimos 18 meses, as implantações de inteligência artificial na Europa avançaram significativamente além dos testes iniciais. Empresas de diversos setores direcionaram volumes expressivos de capital para modelos de linguagem de grande porte — sistemas treinados com grandes volumes de dados para compreender e gerar texto — e para projetos de aprendizado de máquina, técnica que permite ao software identificar padrões a partir de dados sem programação explícita. A expectativa era de que essas tecnologias promovessem transformações operacionais profundas. Contudo, a pesquisa da IDC revela que muitas direções estão reduzindo o ritmo, restringindo o escopo ou redirecionando essas iniciativas diante da dificuldade em demonstrar resultados tangíveis.

Desbloqueando o Potencial da Inteligência Artificial: Por que 91% das Empresas Permanecem Presas na Fase Experimental - Imagem complementar

Um dos principais gargalos identificados pela consultoria está na forma tradicional como as empresas medem o retorno sobre investimento. O modelo convencional de aquisição de tecnologia compara o custo da licença de um software com a redução de pessoal associada. No caso de modelos gerativos e sistemas inteligentes de roteamento de informações, o valor costuma se materializar por vias indiretas, como a abertura de novas fontes de receita, o aumento da produtividade dos colaboradores e a redução de riscos corporativos. Um sistema de manutenção preditiva instalado em uma fábrica, por exemplo, pode não diminuir o tamanho da equipe de engenharia, mas evita falhas catastróficas em linhas de montagem. O benefício financeiro de uma crise evitada, contudo, dificilmente aparece em uma planilha departamental padrão.

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Sem uma abordagem padronizada para quantificar esse valor indireto, as áreas de compras acabam avaliando casos isolados com métricas estreitas. Projetos promissores perdem financiamento antes mesmo de chegar aos ambientes de produção, interrompendo o ciclo de inovação. A recomendação da IDC é que os líderes de tecnologia reformulem seus cálculos de retorno para capturar esses benefícios amplos, conectando-os diretamente aos resultados financeiros da companhia.

Além da dificuldade de mensuração, a transição de um projeto piloto para uma função corporativa permanente exige investimento contínuo e expressivo. Os orçamentos de inovação costumam cobrir os custos iniciais de chamadas de interface de programação de aplicações — as conexões que permitem integrar serviços — e ambientes de teste em nuvem. Porém, levar um modelo para o ambiente real de produção demanda infraestrutura robusta, rotinas contínuas de transporte de dados e manutenção diária. O salto de um ambiente sandbox em provedores de nuvem como AWS ou Azure para uma implantação corporativa completa frequentemente expõe lacunas arquiteturais significativas.

As equipes de engenharia esbarram em dificuldades técnicas ao tentar integrar bancos de dados vetoriais — estruturas projetadas para armazenar e consultar representações numéricas de texto — com servidores legados instalados nas próprias instalações das empresas, como sistemas Oracle ou SAP de décadas atrás. Alimentar uma arquitetura de geração aumentada por recuperação, técnica que combina busca de informações com geração de texto para enriquecer as respostas de um modelo, exige dados limpos e categorizados. Tentar executar modelos de linguagem de grande porte sobre armazenamento desorganizado gera saídas de baixa qualidade e elevadas taxas de alucinação, fenômeno em que o sistema produz informações falsas com aparência de veracidade.

Corrigir essa lacuna estrutural demanda um trabalho extensivo e custoso de reestruturação de dados antes que o software possa funcionar adequadamente. Os custos contínuos de processamento associados à geração de inferências — respostas produzidas pelo modelo a partir de novas entradas — e ao ajuste fino do modelo sobem de forma acentuada, obrigando os líderes de tecnologia a justificar faturas crescentes de provedores de nuvem para equipes financeiras cada vez mais céticas.

As leis regionais de proteção de dados e cibersegurança impõem parâmetros adicionais à implantação em toda a Europa. Garantir a segurança das redes internas contra ataques de injeção de comandos — técnica em que usuários mal-intencionados manipulam as instruções enviadas ao modelo para extrair informações sensíveis ou distorcer respostas — e documentar as árvores de decisão dos modelos eleva os custos operacionais básicos. Muitas equipes de implantação enxergam esses requisitos legais como restrições pesadas, mas a minoria que consegue avançar adota uma postura diferente, utilizando as regras de conformidade para impor uma arquitetura de sistema mais robusta desde o início do ciclo de desenvolvimento.

Segundo a consultoria, esse trabalho rigoroso de conformidade produz resiliência corporativa aprimorada, melhora o desempenho ambiental, social e governamental das empresas e aprofunda a confiança da base de clientes. A legislação funciona como um acelerador para implantações confiáveis, forçando as equipes de engenharia a estabelecer os controles de dados que deveriam ser construídos de qualquer forma, independentemente de mandatos governamentais. Incorporar estruturas de governança desde o primeiro dia do projeto acelera o processo de escala.

A resistência mais forte, porém, costuma surgir no nível operacional, nas mesas de trabalho. Líderes de tecnologia frequentemente projetam soluções que os funcionários se recusam a adotar. A adaptação a processos impulsionados por algoritmos representa uma barreira organizacional, não apenas técnica. Superar a resistência a mudanças exige alinhar a tecnologia diretamente às capacidades existentes da força de trabalho e à cultura da empresa. Diretores de engenharia precisam financiar programas de requalificação profissional e gestão ativa de mudanças para construir confiança nos processos mediados por máquinas. Ignorar o fator humano praticamente garante adoção lenta e alcance operacional limitado.

As organizações que estão obtendo valor de longo prazo desenham suas implantações deliberadamente em torno dos fluxos de trabalho existentes, garantindo que o usuário final se beneficie diretamente das novas ferramentas. Um sistema automatizado de análise de contratos, por exemplo, deve permitir que o departamento jurídico concentre esforços em negociações de alto valor em vez de verificações rotineiras de conformidade. O sucesso das integrações de software está diretamente ligado à capacidade de remover atritos da rotina diária dos colaboradores.

A inteligência artificial já ocupa o centro das operações corporativas, e os líderes digitais modernos precisam conduzir ativamente o crescimento e projetar sistemas que entreguem retornos positivos. A pesquisa da IDC indica que 42% dos líderes de alto escalão da região EMEA esperam que o diretor de tecnologia lidere a transformação digital e de inteligência artificial com foco específico na criação de novas fontes de receita. Essa pressão exige uma mentalidade estritamente comercial, distante da função tradicional de gestor de redes e comprador de sistemas. Os diretores de tecnologia devem conectar iniciativas experimentais a resultados de negócio concretos, garantindo alinhamento absoluto entre todas as áreas da empresa.

No cenário atual, o êxito depende fortemente da capacidade de execução. As organizações que conseguem ultrapassar a fase piloto são aquelas que conectam o trabalho de engenharia aos objetivos comerciais, incorporam governança desde o início e adaptam seus sistemas às necessidades humanas. Conforme o mercado avança, a definição de métodos adequados para medir retornos financeiros e a construção de estruturas corporativas para escala definirão quais empresas conseguirão capturar valor real da inteligência artificial, enquanto os líderes de tecnologia terão de responder como irão alterar seus modelos operacionais para sustentar esses sistemas no longo prazo.