Brasil entre duas potências: a disputa geopolítica por inteligência artificial

Estados Unidos e China investem bilhões de dólares para garantir a liderança global na inteligência artificial, e o Brasil se tornou um dos alvos centrais dessa competição. No ano passado, o presidente norte-americano Donald Trump assinou uma ordem executiva que autorizou a exportação de pacotes completos de inteligência artificial para mercados emergentes, e o país apareceu nominalmente na lista de destinos prioritários, ao lado de Egito e Indonésia. A medida tem como objetivo consolidar a presença tecnológica de Washington em regiões estratégicas antes que a influência chinesa se torne irreversível, colocando o Brasil no epicentro de uma disputa que vai muito além da tecnologia.

Disputa por Domínio: O Brasil no Centro da Batalha pela Inteligência Artificial - Imagem complementar

A competição entre as duas maiores economias do planeta envolve não apenas a fabricação de semicondutores e a construção de centros de processamento de dados, mas também o controle sobre o treinamento dos modelos de inteligência artificial. O treinamento é o processo em que o sistema aprende padrões a partir de grandes volumes de informações, e quem define os dados utilizados nessa etapa acaba determinando os padrões éticos, culturais e regulatórios que o modelo seguirá. Atualmente, grande parte dos sistemas de inteligência artificial adotados pelo setor público e privado brasileiro — como ferramentas de análise de crédito, triagem de políticas públicas, recomendação de conteúdo e gestão de contratos — foi desenvolvida por empresas dos Estados Unidos, seguindo padrões norte-americanos e refletindo realidades daquele país.

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Essa dependência cria um viés estrutural relevante. A infraestrutura cognitiva brasileira está, em grande medida, hospedada em servidores controlados por provedores norte-americanos, que ficam sujeitos ao CLOUD Act, uma legislação que autoriza o governo dos Estados Unidos a requisitar dados armazenados por empresas americanas independentemente de onde os servidores estejam fisicamente localizados no mundo. Isso significa que informações sensíveis de órgãos públicos e empresas brasileiras podem, em tese, ser acessadas por autoridades estrangeiras sem que o governo nacional tenha poder de veto.

Mesmo diante desses riscos, o Brasil não se mantém passivo. O país firmou um memorando de entendimento com Pequim sobre cooperação em inteligência artificial, sinalizando interesse em fortalecer laços com o lado asiático da disputa. Paralelamente, avançou nas negociações com os Estados Unidos e recebeu anúncios de investimentos bilionários em centros de processamento de dados das gigantes Microsoft, Amazon e Oracle, reforçando sua aproximação com o ecossistema tecnológico norte-americano. A estratégia brasileira, ao menos no momento, parece ser a de manter portas abertas para ambos os lados, tentando extrair vantagens onde for possível sem comprometer-se de forma definitiva com nenhuma das duas potências.

Essa posição de equilíbrio é facilitada por atributos que tornam o Brasil um parceiro atrativo para ambos os lados. O país concentra o maior volume de dados da América Latina, um recurso cada vez mais valioso no contexto da inteligência artificial. Além disso, possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, fator decisivo para a operação de centros de processamento de dados, que demandam quantidades enormes de eletricidade e geram impacto ambiental significativo quando dependem de fontes fósseis. O Brasil também desenvolveu o PIX, sistema de pagamentos instantâneos reconhecido como uma das soluções financeiras digitais mais avançadas em operação no mundo, o que demonstra capacidade técnica para implementar tecnologias complexas em larga escala.

A pergunta que permanece sem resposta concreta é quais concessões o Brasil estará disposto a fazer em troca de acesso às tecnologias de inteligência artificial. Ao aceitar um pacote completo de um dos lados — incluindo processadores, modelos, padrões de governança e obrigações regulatórias — o país inevitavelmente abdicará de parte de sua autonomia tecnológica. A reportagem publicada pelo G1 destaca que os dois modelos chegam com política externa embutida no contrato, ou seja, a escolha tecnológica carrega implicações diplomáticas e estratégicas que extrapolam o campo da inovação.

O debate público brasileiro, no entanto, ainda não enfrentou essa questão com a profundidade necessária. Enquanto os investimentos em centros de processamento de dados avançam e os acordos com as duas potências se multiplicam, a sociedade civil, o poder legislativo e a academia precisam discutir de forma transparente quais são os limites aceitáveis para a dependência tecnológica externa e como o país pode construir uma capacidade própria em inteligência artificial que preserve sua soberania sem isolar-se dos avanços globais. O dilema está colocado, e as decisões tomadas nos próximos anos definirão o papel do Brasil no novo mapa geopolítico da tecnologia.