O Brasil busca inserção na indústria global de semicondutores

A disputa internacional por semicondutores deixou de ser um assunto restrito à indústria de tecnologia para se tornar uma prioridade estratégica de governos em todo o mundo. Nesse cenário competitivo, o Brasil ainda não participa da fabricação de chips avançados, mas mantém presença em etapas específicas da cadeia produtiva e articula movimentos para ampliar sua atuação em um setor que é considerado essencial para o desenvolvimento tecnológico e econômico contemporâneo. A empresa pública federal Ceitec, sediada no Rio Grande do Sul, aparece como principal protagonista dessa tentativa de inserção nacional em uma indústria que movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente.

Brasil no Circuito: O Desafio de Entrar na Indústria Global de Semicondutores - Imagem complementar

Presentes em praticamente todos os dispositivos eletrônicos, desde smartphones e veículos até data centers e sistemas de inteligência artificial, os semicondutores são componentes eletrônicos que controlam o fluxo de energia elétrica e possibilitam o processamento de informações. Eles se tornaram um dos pilares fundamentais da economia digital e da infraestrutura tecnológica moderna. Nos últimos anos, essa importância ganhou ainda mais evidência diante de crises de abastecimento, tensões geopolíticas entre grandes potências e uma demanda crescente impulsionada por novas tecnologias. A produção, altamente concentrada na Ásia, com destaque para Taiwan e Coreia do Sul, expôs vulnerabilidades na cadeia global e levou diferentes nações a repensarem suas estratégias industriais com planos bilionários de expansão da capacidade produtiva.

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O Brasil ainda está longe de competir na fabricação dos chips mais sofisticados, mas já desenvolve atividades nas extremidades da cadeia. O país conta com empresas de design, que são companhias voltadas ao projeto de semicondutores, e possui uma indústria de encapsulamento, que é a etapa final do processo em que o chip já fabricado é preparado para ser integrado a outros componentes eletrônicos. O que falta, e representa o grande obstáculo, é a etapa intermediária: a fabricação do chip em si. Essa lacuna obriga o país a enviar projetos nacionais para serem produzidos fora de suas fronteiras, limitando a autonomia tecnológica e a captação de valor agregado.

Para tentar preencher esse vazio, o Ceitec, cujo nome completo é Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, está concentrando esforços na busca pela competência para fabricar semicondutores de potência. Esses chips são utilizados em aplicações que exigem eficiência energética, como automóveis elétricos, geração de energia eólica e solar, e motores elétricos. Trata-se de uma área em crescimento no mundo inteiro e que ainda está em desenvolvimento, o que abre uma janela de oportunidade para o Brasil entrar sem precisar competir imediatamente com as gigantes asiáticas na tecnologia de ponta. A estratégia envolve a adoção da tecnologia de carbeto de silício, um material que permite maior eficiência no controle de energia e que está em ascensão no mercado global.

A direção do Ceitec, representada pelo presidente Augusto Gadelha e pela diretora de Negócios Edelweis Ritt, reconhece que o caminho será longo e desafiador. A fabricação de semicondutores exige conhecimento tecnológico avançado, recursos humanos altamente qualificados e maquinário de altíssima complexidade, com investimentos iniciais que facilmente alcançam bilhões de dólares. Além disso, existe no Brasil uma carência de mão de obra especializada, problema que só se resolve com investimento contínuo em formação ao longo de anos. Outro entrave é a escala: para uma fábrica se sustentar, ela precisa ter demanda suficiente e acesso a mercados, muitas vezes internacionais, já que o Brasil sozinho não consegue absorver toda a produção de uma única unidade fabril especializada.

A experiência da Embraer é frequentemente citada pelos dirigentes do Ceitec como um exemplo clássico de que a persistência pode vencer a desconfiança inicial. No início, ninguém acreditava que o Brasil poderia ter uma indústria aeronáutica competitiva, mas décadas de investimento, formação de recursos humanos e apoio estratégico construíram uma das maiores empresas do setor no planeta. A lógica para os semicondutores é semelhante: trata-se de um projeto de longo prazo, que leva quinze, vinte anos ou mais para amadurecer, e que não pode se resumir a uma política de governo de quatro anos. Países que avançaram nessa área, como Coreia do Sul, Taiwan e, mais recentemente, China e Índia, tiveram uma vontade clara de Estado de desenvolver essa indústria como prioridade nacional.

A cadeia produtiva de semicondutores pode ser dividida em três grandes etapas: o design, a fabricação e o encapsulamento. O Brasil já atua nas duas pontas e está buscando avançar na etapa central. O Ceitec detém hoje a única fábrica de wafer com capacidade produtiva na América do Sul. O wafer é a base circular de material semicondutor onde os chips são efetivamente produzidos. Dominar essa etapa significa abrir caminho para criar uma cadeia mais completa dentro do território nacional, permitindo que projetos desenvolvidos por empresas brasileiras de design sejam fabricados localmente, reduzindo a dependência do exterior.

O Brasil possui alguns atributos que podem favorecer essa inserção gradual. O país dispõe de energia limpa, proximidade com grandes mercados consumidores e capacidade de formar mão de obra qualificada. O Rio Grande do Sul, onde está instalado o Ceitec, já mostrou na prática que a criação de um ecossistema atrai investimentos internacionais: quando profissionais do centro de design da empresa pública foram desligados em determinado momento, duas empresas estrangeiras se instalaram no estado justamente para absorver essa mão de obra especializada. Esse movimento demonstra que o Brasil tem capacidade técnica reconhecida, mas precisa de continuidade e investimentos constantes para não perder talentos e oportunidades.

Nos próximos anos, o Ceitec pretende focar na aquisição da capacidade tecnológica para fabricar semicondutores de forma comercialmente viável, começando pelo atendimento ao mercado nacional e, posteriormente, avançando para exportações. A expectativa é que a produção possa ser retomada em aproximadamente dois anos, embora ganhar relevância global seja um processo gradual que levará muito mais tempo. Para acelerar essa curva de aprendizado, a empresa busca parcerias com companhias estrangeiras voltadas à transferência de tecnologia. Como beneficiária do PADIS, programa federal de incentivo ao desenvolvimento tecnológico da indústria de semicondutores, o Ceitec também é obrigada a investir parte de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento, o que ajuda a impulsionar o ecossistema de inovação local.

Iniciativas como o Redata, voltada à expansão de data centers no Brasil, também podem impulsionar essa cadeia. Esses centros de processamento de dados demandam não apenas processadores, mas também uma grande quantidade de semicondutores de potência ligados à eficiência energética. O principal desafio dos data centers hoje é exatamente o fornecimento e a gestão de energia. Se o Brasil desenvolver uma indústria nesse nicho, poderá atender a uma demanda interna crescente, o que é fundamental para dar escala à produção nacional. Sem uma base de consumo local, as empresas brasileiras ficam reféns exclusivamente da exportação, um caminho mais difícil para quem ainda precisa construir credibilidade internacional.

O mercado de semicondutores é internacionalizado e nenhum país produz apenas para si. Taiwan e Coreia do Sul não fabricam só para seus mercados internos, mas competem globalmente. Por isso, desde o início, o Brasil precisa pensar em competitividade fora de suas fronteiras. A indústria está crescendo rapidamente, impulsionada pela inteligência artificial e por novas aplicações, e especialistas projetam que o setor pode alcançar um faturamento de um trilhão de dólares nos próximos anos. Esse crescimento tende a aumentar o número de players e pode favorecer uma descentralização produtiva, abrindo espaço para novos participantes em nichos específicos. Para o Brasil, a questão não é se pode ou não entrar nesse jogo, mas se terá a persistência e a visão de longo prazo necessárias para construir uma posição relevante em uma indústria que define o futuro da tecnologia mundial.