A designer portuguesa Margarida Barreto afirmou, em episódio recente do podcast Quatro à Conversa, que a inteligência artificial revolucionou o trabalho criativo ao transferir o valor da execução técnica para a direção estratégica humana, destacando a importância do enquadramento dado pelos profissionais. Essa visão surge em um contexto onde ferramentas generativas como Midjourney e DALL-E democratizam a produção visual, permitindo que mais pessoas acessem processos antes restritos a especialistas técnicos.
Barreto compara sua trajetória com a de seu avô, também designer, que trabalhava manualmente em uma era sem computadores ou IA, enviando trabalhos por estafetas. Ela mesma começou sem computador, mas adotou ferramentas digitais progressivamente. Hoje, vê a IA com curiosidade e paixão, reconhecendo que ela responde bem a prompts bem estruturados, mas depende do contexto humano para gerar resultados relevantes.
O podcast Quatro à Conversa, produzido pelo Expresso e SIC Notícias, reúne três humanos e um chatbot para discutir o uso diário de IA, abordando dicas práticas, dilemas éticos e mitos. No episódio com Barreto, o foco recai sobre como a IA altera o papel dos designers, liberando-os de tarefas repetitivas para se concentrarem em ideias originais e estratégias.
A transição no design gráfico reflete uma evolução histórica. No século XX, designers dependiam de técnicas manuais como litografia e serigrafia, exigindo domínio técnico extenso. A chegada dos computadores nos anos 1980, com softwares como Adobe Photoshop e Illustrator, automatizou partes do processo, mas ainda requeria habilidades específicas. Agora, modelos de IA generativa, treinados em vastos datasets de imagens, produzem artes complexas a partir de descrições textuais.
Ferramentas como Stable Diffusion e Midjourney exemplificam isso. Um prompt detalhado — descrevendo estilo, composição, cores e referências — pode gerar variações em segundos, algo que levava horas ou dias manualmente. Barreto enfatiza que o diferencial está no 'enquadramento humano': saber formular prompts eficazes exige compreensão profunda do briefing do cliente, tendências culturais e objetivos de comunicação.
Essa mudança impacta o mercado de trabalho. Profissionais que dominam IA ganham eficiência, mas há receios de substituição. Estudos gerais indicam que IA complementa criatividade humana, ampliando acesso. No Brasil, agências como AlmapBBDO e DPZ&T experimentam IA para conceitos iniciais, acelerando pitches e permitindo iterações rápidas.
No contexto brasileiro, o setor criativo enfrenta desafios semelhantes aos europeus. Com mais de 10 mil agências registradas no SINAPRO, muitas em São Paulo e Rio de Janeiro, a adoção de IA varia. Pequenas equipes beneficiam-se da redução de custos em produção visual, enquanto grandes redes globais como WPP integram ferramentas proprietárias. Designers brasileiros, formados em instituições como ESPM e Senac, precisam atualizar currículos para incluir prompt engineering — a arte de criar instruções precisas para IA.
Barreto menciona que seu avô representava uma era onde tudo era artesanal, contrastando com a atual velocidade digital. Ela começou desenhando à mão e migrando para digital, vendo a IA como próxima etapa natural. Essa progressão ilustra como tecnologia sempre transformou profissões criativas, de imprensa tipográfica à era digital.
Dilemas éticos surgem: propriedade intelectual de imagens geradas por IA, treinadas em obras de artistas sem consentimento sempre explícito, e o risco de homogeneização estética. Barreto defende uso responsável, com humanos guiando para originalidade. Regulamentações na UE, como AI Act, visam mitigar riscos, influenciando globalmente.
Para profissionais, o conselho implícito de Barreto é abraçar a IA como aliada. Em vez de temer perda de empregos, focar em habilidades estratégicas: interpretação de briefs, narrativa visual e inovação conceitual. Empresas que treinam equipes em IA veem ganhos de produtividade de até 30-50% em fluxos criativos, segundo relatórios setoriais gerais.
No podcast, o chatbot participa, simulando debates, o que reforça a tese: IA é ferramenta conversacional, mas humanos definem direção. Barreto nota que IA 'responde muito bem', mas sem enquadramento, resultados são genéricos. Isso ecoa debates globais, com Adobe Firefly integrando IA ética em Photoshop.
Comparando com concorrentes, enquanto alguns designers resistem, pioneiros como Barreto exploram IA para narrativas imersivas, combinando com voz (ElevenLabs) e animação. No Brasil, eventos como Pixel Show discutem essas tendências, preparando o ecossistema local.
Em síntese, as palavras de Margarida Barreto capturam a essência da era da IA no design: execução técnica commoditizada, valor na visão humana. Essa shift permite escalabilidade criativa, beneficiando indústrias publicitária, editorial e digital.
Olhando adiante, espere maior integração de IA em workflows, com avanços em multimodalidade (texto-imagem-vídeo). No Brasil, com crescimento do e-commerce e redes sociais, demanda por conteúdo visual explode, favorecendo adotantes precoces.
Para leitores brasileiros de tecnologia, a mensagem é clara: invista em literacia de IA agora. Designers, publicitários e criativos que combinam intuição humana com precisão algorítmica liderarão o mercado. A era do 'tudo à mão' acabou; a do 'direcionamento inteligente' começa.